Dezenas de milhares de estudantes e professores protestaram em todo o País nesta quarta-feira (15) contra o bloqueio de recursos para a Educação, anunciado pelo governo de Jair Bolsonaro, que atribuiu a agitação à manipulação de “idiotas úteis” por parte de uma minoria de esquerda.

Greves e atos foram convocados por sindicatos de estudantes, professores e pessoal de serviço de universidades federais e colégios secundaristas. Várias instituições de ensino privado se somaram a esta primeira grande onda de contestação às políticas do presidente ultraconservador, que assumiu o cargo em 1º de janeiro.

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As principais manifestações começaram ao final da tarde, mas por volta das 15h, multidões já se reuniam nas principais cidades do país.

As palavras de ordem também apontavam contra a reforma da Previdência – considerada essencial pelo mercado financeiro e pelo governo para acertar as contas públicas – e contra o decreto recente de Bolsonaro de flexibilixar o porte de armas.

Alguns sindicalistas veem as manifestações desta quarta como um teste para a greve geral, convocada para 14 de junho contra a reforma previdenciária.

“Minha arma é o livro. Mas infelizmente, a educação não é uma prioridade e onde faltam cultura e educação, sobra violência”, disse à AFP a escritora Alessandra Roscoe durante a manifestação em Brasília.

Em São Paulo (foto), autoridades fecharam a avenida Paulista, uma das principais vias da cidade, lotada por manifestantes em sua maioria jovens, incentivados por uma banda musical e repetindo palavras de ordem como “Tirem as mãos da educação” e “Livros sim, armas não”.

“Ou param estes cortes ou paramos o Brasil”, repetiam os manifestantes em volta de um carro de som na Paulista.

No Rio de Janeiro, várias universidades montaram barracas na Praça XV, centro da cidade, com o lema “a aula hoje é na rua”.

Segundo fontes policiais, havia 15.000 manifestantes em Brasília e 20.000 em Belém do Pará. Organizadores contaram pelo menos 70.000 em Salvador.

Cartazes e camisetas com a inscrição “Lula Livre” foram vistas em várias manifestações.

Os atos foram realizados com pouco contingente policial e em clima de tranquilidade, embora alguns incidentes tenham sido registrados. Em Porto Alegre, a Polícia dispersou com bombas de gás lacrimogêneo grupos de jovens em frente à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Cortes

Os protestos denunciam os planos do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de bloquear recursos, inclusive 30% do orçamento discricionário (não obrigatório) das universidades federais. A medida afeta milhares de bolsas de estudo, assim como o pagamento de contas de luz, água, serviços de limpeza e segurança.

O governo alega que não se tratam de cortes definitivos, mas um contingenciamento de recursos em todas as áreas quando a renda prevista é inferior à contemplada nos orçamentos.

Weintraub, convocado pela Câmara dos Deputados, explicou que o novo governo “não é responsável pelo desastre da educação básica brasileira” e advertiu que a “autonomia universitária não é soberania. As universidades têm que respeitar as leis”.

‘Idiotas úteis’

Bolsonaro optou por confrontar os manifestantes, afirmando que a maioria dos manifestantes é “militante. Não tem nada na cabeça”.

“Se perguntar 7 x 8 não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo utilizados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais do Brasil”, afirmou Bolsonaro, em visita a Dallas (Texas), onde será homenageado nesta quinta-feira (16) pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

Estas declarações foram consideradas uma afronta por muitos manifestantes, que insistem na defesa da educação.

“Tenho mestrado e pós-doutorado em energia; se alguém é idiota nessa história não sou eu. Sem ciência não há saúde, nem trabalho. Estamos aqui lutando para que o Brasil continue produzindo conhecimento. Sem dinheiro, não há conhecimento”, afirmou Mariana Moura, de 38 anos, pesquisadora do Instituto de Energia da Universidade de São Paulo.

Desde a chegada de Bolsonaro ao poder, a Educação se tornou um campo de disputa entre os setores mais conservadores do eleitorado do capitão, decididos a extirpar qualquer vestígio do “marxismo cultural” nas salas de aula.

O presidente já tinha causado polêmica em abril, ao anunciar no Twitter que seu governo analisava cortar verbas para cursos como filosofia e sociologia nas universidades públicas, com o objetivo de concentrar esforços em cursos como veterinária, engenharia ou medicina.

No Twitter, os três principais temas de discussão nesta tarde eram #TsunamiDaEducação, #Lula Livre e #NaRuaPelaEducação.


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